Soluços e soluções

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Soluços e soluções
Quais são as perspectivas de crescimento do audiovisual?

Alain Fresnot
Diretor, produtor e ex-presidente da Apaci (Associação Paulista de Cineastas) e do Conselho Superior do Audiovisual; dirigiu filmes como “Desmundo”, “Ed Mort” e “Família Vende Tudo”, entre outros

No ano passado foram vendidos 100 milhões de ingressos para os cinemas, praticamente meio ingresso por cidadão brasileiro. É o que tínhamos antes da pandemia. Isso afastou as previsões catastróficas em função da Covid-19 e do advento do VOD (“Video On Demand”), cenários que previam a agonia do cinema nas salas de todo o mundo.
A derrota do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) é um sopro de esperança para a indústria cinematográfica. Basta lembrar a visão preconceituosa demonstrada em relação a um filme que ele não tinha visto (“Bruna Surfistinha”), o bater de continência à bandeira americana, que se traduziu na suspensão da cota de tela para os produtos nacionais, e o acordo feito pela Ancine (Agência Nacional do Cinema) com a MPA (“Motion Pictures of America”), legítima lobista dos interesses do cinema americano.

Importante salientar que é a força da distribuição internacional dos blockbusters que permite a mobilização de capitais, numa escala inalcançável para outras cinematografias. Isso estabelece um círculo virtuoso para tais produtos e um bloqueio “aparentemente natural” às criações locais.

Em consequência, cada país produtor procura defender sua indústria com medidas fiscais, alfandegárias ou de reserva de mercado —com resultados desiguais. Exemplos são a França, com 35% de produção própria, e a Coreia do Sul, em torno de 50%.
No Brasil, a retomada da possibilidade de diálogo com o Executivo federal e a sensibilidade deste para a importância da indústria audiovisual permitem um real otimismo.
A passagem anterior de Lula no poder propiciou avanços com a presença do produto nacional nas emissoras de TV e a pulverização da produção em todos os estados da Federação, mas deixou a desejar quanto à ampliação de nossos filmes no circuito exibidor, tendo ficado letra morta o plano plurianual de crescimento de “market share”.

A recriação do Ministério da Cultura e a retomada dos financiamentos a partir de nossa agência de fomento Ancine vão na direção correta. A superação do conflito entre esta e o Tribunal de Contas da União, fruto da incompreensão da especificidade do fazer cinematográfico, também é motivo de otimismo.
A verdadeira resolução das amarras que inviabilizam a afirmação do cinema brasileiro passa por superar interesses vários e poderosos.
Temos de reinstituir o mecanismo da cota de tela, adaptado às novas modalidades de lançamento dos filmes nas salas. Importante também defender nossas produtoras nas negociações com os players internacionais de VOD e incorporar estas na base de tributação da Condecine (Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional), sobre a qual nossa produção se estrutura.
Cada 10% de aumento do produto nacional nas telas economiza para o país uma fortuna em remessa de lucros. A história do cinema brasileiro é uma sucessão de episódios criativos fecundos e financeiramente importantes, interrompidos por traumas institucionais paralisantes, lembrando os soluços de Carlitos.
Apesar do diálogo agora retomado com as autoridades, acredito que a realização de um congresso da indústria, com todos os parceiros em torno da mesa, possa dar visibilidade nacional e estratégica que a questão merece e fazer com que este novo cavalo encilhado que passa agora não seja mais um soluço, mas o começo da solução.

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